

“— Finalmente o achei — disse, fazendo menção ao vinil que estava encostado ao lado da parede, perto de sua pequena mureta de livros. Olhou aquele exemplar dos Beatles com orgulho, depois tirou-o da capa, e pôs a tocar — Quando mencionei a pequena melodia pausada, me referi a esta música que está tocando agora. A vida é parafraseada e paramelodiada como esses versos, mas nós sempre, astutamente ou imbecilmente, tiramo-os de seus cursos naturais e fazemos com que eles deem uma volta ao mundo por nós… — suspirou, ordenando pequenos olhares para o assoalho e para o lado de fora de sua janela — Mas sinceramente, queria que tudo fosse mais fácil como nessa música — desabafou.
— Como nessa música… — ela retrucou de uma forma singela, como se sua fala fosse o eco da anterior. O frio do meado do ano começava a apertar, fazendo as cortinas de seda dançarem juntamente com o vento forte que entrava pela janela. Os dois, ao sentir aquele frio percorrer suas espinhas e pele, se entreolharam e riram. Riram o suficiente para se calarem, como se o estrondo de suas vozes fosse o clímax de seus silêncios tão sublimes e despretensiosos. Depois de um longo tempo observando seus olhos refletidos em outros olhos, sentiram cheiro de chuva. A garoa fina de final da tarde começou a cair levemente sobre a janela, fazendo cessar toda aquela ventania enlouquecedora que antes o perturbaram. Os dois sentaram na sacada do prédio para observar aquela leve garoa, e o sol, que estava por um fio de se por.
— Sempre me disseram que a paisagem do final da tarde era bonita. Bom, teimo em discordar — disse o rapaz alto e robusto, fã dos Beatles — Com todos esses edifícios e essa cobertura cinza que paira sobre a cidade, ainda é possível achar beleza num pôr do sol? — completou um pouco injuriado, insatisfeito. Não por estar ali, mas por estar ali e não ter, diante de seus olhos, aquela que seria a paisagem perfeita para um fim de tarde. Cingiu os braços por entre as pernas e colocou o queixo sobre os joelhos e fez uma cara pensativa, um pouco desaprovadora. Ela o encarou e riu, logo em seguida, olhando pelo canto dos olhos toda aquela situação e pensando, como sempre, em cada palavra que ele acabara de proferir.
— A beleza está nos olhos de quem vê. Algumas pessoas olham para os topos dos prédios e veem apenas ilhas de calor, ou então grandes montes de pessoas ocas e sem perspectivas, já outras olham sempre o que está além daquele primeiro plano, ou seja, olham sempre para o alto, para o mais, para o além, quem sabe. Os olhos materializam aquilo que o coração tenta traduzir — ela completou, fazendo com que o rapaz que o acompanhava ficasse cada vez mais pensativo e mais errôneo. Ele dava pequenos risos a cada vez que se lembrava das palavras daquela menina. Ela o olhou novamente, como se desaprovasse ou não entendesse a atitude dele. Zombaria, talvez… Quem sabe?
— Essa pontada de ironia em suas risadas foi real ou apenas ilusão da minha cabeça? — disse, dando-lhe pequenos tabefes no ombro esquerdo, sorrindo, logo em seguida. Ele o despertara para uma nova vida, a qual desconhecera. Suas poucas palavras, trocadas sempre em fins de tarde a fizeram descobrir um mundo novo, cheio de novas perspectivas; mas ela tinha medo de entrar nele, e cair em uma armadilha, ou um buraco sem fim. Que louca ela era… Vivia sempre fugindo do amor. Quando o via na esquina, corria sempre para a calçada oposta, só para não ter de cruzar com ele. Dizia que era precaução, mas aos olhos dos outros, era loucura. Sempre fora loucura.
— Não foi ironia — ele disse, e gargalhou. Aquela ideia de frases irônicas não havia passado em sua cabeça naquele fim de tarde. Situação crítica, um pouco abrupta. Engraçadíssima. — Só achei diferente o modo como você pensa. Sempre tão sutil, tão sensata, tão socrática, que me faz lembrar das minhas aulas de Filosofia do ensino médio — completou, fazendo-a rir estrondosamente. Ela repetia suas palavras, e as intercalava com pequenas gargalhadas que saíam no ímpeto da situação. Os dois riram. Se entreolharam. Riram novamente. Não sei se por falta do que falar ou por vontade de realmente rir, mas aquela situação havia passado de cômica para obsoleta. Guardiã de sentimentos ressentidos.
O tempo havia realmente voado. Em questão de segundos, já era noite, e a lua estava lá, fazendo sala para aquele casal fora de seus baixos e hostis padrões. Aquela garoa, depois que cessou, deixou no ar uma temperatura fria, fazendo com que os dois se recolhessem ao aconchego daquele pequeno apartamento. Os dois queriam esse tal aconchego um do outro, contudo, nenhum dos dois cedia. Não por orgulho, mas por medo, talvez, quem sabe…
— Você gosta de vinho? — ele começou um novo diálogo, indo até a cozinha e pegando duas taças dentro do armário. Seus pensamentos borbulhavam, assim como suas incertezas; ele tinha medo de tentar, e errar, mas ele tinha esperança. Ainda havia esperança naquele coração frágil e árduo, disfarçado de forte por uma capa de ferro. Coitado… Enganava a si próprio e nem sabia o mal que isso lhe causava.
— Gosto, mas faz tanto tempo que não bebo… Acho que esqueci até o gosto — disse suavemente, pondo um pouco de drama em suas últimas palavras. Nada fingido, era sério o que ela acabara de dizer. A tempos não saía para ver o pôr do sol, para conversar com velhos amigos, reencontrar novos amores… Ela havia dado a si mesma a sentença do ostracismo, e parecia que vivia bem assim. Apenas parecia. Palmas, o seu eterno teatro de ”não se preocupe, eu estou bem” estava mesmo funcionando, não só com ele, mas com a maioria das pessoas que encontrava na rua. Trabalho, independência, imóveis em seu nome… Vida perfeita, o que mais ela poderia querer? Um amor.
— Espere um pouco, calma… Prêt! — gritou logo após ouvir o estrondo que a rolha causara ao desapegar-se da garrafa de vinho que por tanto tempo guardara — Meu pai me deu essa garrafa a algum tempo, disse que deveria abri-la ou compartilha-la com alguém especial — disse, fazendo-a ficar um pouco corada — Como sei que és uma pessoa culta e extremamente fugaz, lhe adianto: de vinhos, não sei nada! Não me pergunte a safra, o tipo, nem nada do gênero, por favor. Sou um leigo nesses assuntos — disse, gargalhando. E ele era mesmo. Antes de se encontrar com aquela moça, leu todas as biografias de seus autores favoritos, alguns trechos de romances e ainda arriscou falar francês. Queria ser, perto dela, um verdadeiro gentleman, mas acabou parecendo um homem comum, como qualquer outo, o qual ela havia, despretensiosamente, se apaixonado.
— Você é inimaginável — ela começou, rindo e intercalando alguns goles de vinho, fazendo acenos e caretas positivas com relação a ele. Ficaram um tempo em silêncio analisando a letra da música que ouviam e observando cada canto daquele minúsculo cubículo, até chegarem em seus respectivos corpos.
— Gosta de Beatles? — ele começou.
— Muito! — ela respondeu com destreza e rapidez.
Os dois ficaram, durante muito tempo, conversando e discutindo sobre gostos musicais. Os dois pareciam peças de quebra-cabeças que haviam, finalmente, se encaixado. Incrível como os dois, mesmo com suas diferenças, suas perspectivas e seus sonhos, faziam tudo se tornar milimetricamente perfeito, aos seus olhos, e aos de quem os via também. Assim como havia dito, ainda havia esperança, e parecia que eles a haviam encontrado.
Os dois, em suas respectivas loucuras sanadas, diziam coisas sem sentido, fazendo com que o prédio inteiro ficasse a par de sua felicidade.
— Vou mudar minha identidade — ele começou — daqui em diante me chamarei Pedro, e irei morar em Buenos Aires. Sinceramente? Preciso de ares novos. Não que a fumaça e o transtorno de São Paulo seja ruim, pelo contrário, é até aconchegante, mas, chega um certo momento da vida em que é preciso escolher entre o sério e o relativo, entende? Portanto — ele riu — me chame de Pedro daqui pra frente — ela o olhou e o acompanhou com uma risada estridente, que, por ironia, fazia bem aos ouvidos de Pedro.
— Já que é assim, também irei aderir ao seu movimento revolucionário de identidade. Daqui pra frente me chame de Ana, sem precedentes. Apenas Ana. Meu nome é uma farsa, e essa casca que me envolve também. Não faz sentido continuar vivendo uma vida que não é minha, e tomando conta de um coração que não é meu… — ela disse, reflexiva ao fim — Irei para a Argentina com você, posso? — completou, fazendo seus olhos, e os de Pedro saltarem de uma alegria desconhecida, porém boa e transparente. Pedro assentiu com a cabeça, e em seguida, abriu um belo sorriso.
O tempo voara mais uma vez. Quando se deram conta, já estavam na metade da madrugada. Riram de seu esquecimento. A então Ana se levantou, pôs as taças na pia, as lavou, guardou, e anunciou, com um quê de tristeza, que iria embora. Ela realmente não queria ir, mas a situação pedia para que ela fosse. Não havia mais o que fazer naquele cubículo, com o então Pedro. Ela foi até a sacada, pegou sua pequena bolsa vermelha e seu casaco de lã branca, e se pôs a ir embora. Pedro a deteve.
— Já que agora somos novas pessoas, com novos nomes, novos estilos de vida e por tudo isso, não nos conhecemos mais, poderia lhe pedir uma coisa? — ele disse com um tom natural, sóbrio. Seus narizes se tocaram algumas vezes, até que ela respondesse positivamente à pergunta de Pedro.
— Quero ficar com você — ele disse com todas as letras e algumas mais, olhando profundamente em seus olhos acastanhados e medonhos que, em algum lugar, estava soltando fogos de alegria por aquele acontecimento. Beijaram-se, e viram que a presença um do outro era a única coisa que lhes faltava, ou melhor, a única coisa que eles sempre precisaram.
Adormeceram no sofá da sala, provando a presença um do outro a cada novo respirar. Preencheram, então, aquele enorme vazio que estavam entre eles, e dentro deles.
E viram que aquilo era bom.” Carla Mangueira, bailarinar

A palavra ‘impossível’ é sempre usada por alguém que desistiu. Na boa? Não queira ser a pessoa que desistiu, queira ser aquela que tentou, lutou e conseguiu. E caso não consiga, pelo menos poderá dizer ”eu tentei!”. Thalita Santos